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domingo, 13 de maio de 2012

A paz começa no berço



                  A mineirinha procurava a paz interior, aquela sensação gostosa de ser feliz sem culpas, sem cobranças, quase impossível desejo de saber-se apreciada, respeitada e aceita. Seu jovem coração não concebia nada menos ambicioso que o amor imenso, incondicional e irrestrito,
tão natural nas famílias de alguns de seus amigos, felizes eleitos.
            Todos os dias, na escola, a garotinha observava o hasteamento da Ordem e Progresso, relanceando olhares suspirosos para a Liberta Quae Será Tamen. Ah, como seria outra a história de nosso país, se diferente fosse a nossa bandeira!
            A liberdade parecia-lhe bem mais precioso que o mundinho organizado, severo e monótono do colégio católico dirigido por freiras para a educação das moças de boa família.
            Em casa e na escola, a perfeição era a meta. A garotinha bem que se esforçava; corria para a casa com o peito coberto por medalhas e seu rostinho murchava ante a indiferença da mãe: “não fez mais que a obrigação”. O pai, que freqüentemente declarava que não tivera herdeiro mas fora premiado com uma princesinha, assinava distraído o boletim repleto de notas dez e despedia a filha : “agora vá brincar, papai tem coisas importantes a fazer”.
            Que a busca pela perfeição era convite certo para a infelicidade a garotinha só compreendeu anos mais tarde, quando o professor de filosofia citou a crítica de Nietzsche ao positivismo, esta técnica de antropometria que rouba do homem o direito de ser feliz por sua individualidade.
            O mais duro golpe em suas crenças aconteceu na faculdade, após vitorioso vestibular, para ela passo certo para o reconhecimento de seu valor pessoal, até o dia em que o rapaz bonito de beijo gostoso a descartou porque “gente pobre só pode estar atrás do meu dinheiro”. O que a mocinha de coração magoado poderia fazer, além de lamentar o homem tão sem mérito, que via sua conta bancária como único atrativo para uma mulher?
            Tal comentário teve, no entanto, o mérito de abrir-lhe o entendimento para as festas das quais era excluída, para o sorriso condescendente depois da pergunta por seu nome de família, para as implicações das tradições genealógicas dos distinguidos pelos professores.
            Porém, para além da discriminação, havia uma genuína alegria iluminando as faces de alguns filhos amados, aceitos e paparicados pelas famílias ricas. Ah, como a mineirinha invejava aquela mocidade feliz, aquela satisfação de sentir-se a pessoa certa no lugar certo! E ela compreendia, entre outras coisas, que a perfeição que lhe haviam apresentado como ideal era impossível, frustrante, caminho  certo para a insatisfação. Que o importante não é estar certo, é ser feliz, pois quem está feliz está em paz consigo mesmo.
            Quem está feliz quer continuar a ser feliz, raciocinava a mocinha, concluindo que pessoas felizes promoverão a paz no mundo.
Ora, as pessoas só são felizes quando geradas com amor e aceitas incondicionalmente. Por isto a mineirinha de outrora ensina hoje a suas filhas que as pessoas são como as flores, desabrocham para alegrar o mundo, cada qual com seu perfume e cor peculiares, maravilhosas em sua diversidade. E as embala cantando a alegria, o respeito e a liberdade.

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