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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Lágrima...

LÁGRIMA


           (Para aquelas, de todas as partes do mundo, que vieram antes de mim,  
          e me deixaram tão assombrosa, tocante e inimaginável herança, com 
          imensa gratidão e amor, Gi)



        Era uma lágrima. Apenas uma lágrima.
Que silenciosamente rolava pela face da mulher que pensava.
Uma lágrima. Apenas uma lágrima.
Que ela tentou enxugar. Que ela tentou esquecer.
Da qual tentou se livrar. E que, corajosa, tentou esquecer.

Pois não era assim que deveria ser ?
O mundo não a ensinara, com toda a sua soberba certeza,
que se não fosse forte, não tivesse ao menos
fachada de dureza, seria esmagada com rudeza ?


Ela aprendera a lição.
Mas não tão bem a ponto de domar seu coração.
E a lágrima continuava lá, a rolar...
Uma lágrima, uma única lágrima,
como uma minúscula poça d'água a refletir noite gelada.
Quanta dor encerrada numa pequena gota salgada...

A dor da menina. A dor da jovem. A dor da mulher.
A dor do peito. A dor da mente. A dor da alma.
A dor da que sente e pensa e tenta expressar,
e tenta dizer...e tenta voar... A dor da artista.
Todas escondidas atrás do rosto de anciã,
no qual o tempo até que trabalhara com suavidade,
mas onde a lágrima continuava a machucar sem piedade...
Uma grande artista, diziam. Uma grande artista, dizem ainda.
Divertida cronista, talentosa romancista, sensível poetisa,
brilhante ensaista, corajosa guerreira, diziam e dizem.
Mas quantos sabiam o que diziam ?
E quantos o sabem agora ? Quantos puderam compreender
o que ela tentara dizer...dizer...dizer....
Quantos puderam entender sua busca, seu pensamento,
as idéias doadas, os sentimentos expostos e partilhados,
sua árdua luta, seu devastador amor pela ternura,
sua loucura pela gentileza não importando as agruras,
seu indomável sonho de fraternidade, sua incorrigível paixão
pela liberdade e pelo ousado senso de humor construtor ?
Quantos realmente partilhavam de sua guerra atroz
contra a injustiça e crueldade ? De seu combate feroz
por todos os direitos e igualdade, dentro do respeito à diversidade ?
De sua inexaraurível sensibilidade diante das vidas sofridas e amargas ?
De seu carinho incondicional, gigantesco, por suas irmãs
e pelos discriminados/as ? Quantos puderam sentir, genuinamente,
ao menos um tantinho do que ela sentia ? Quem a ouvira ? Quem a ouvia ?

Ela olhou à sua volta.
A mesma estupidez. O mesmo discurso. A mesma aridez.
A mesma hipocrisia. O mesmo preconceito. A mesma tirania.
O mesmo egoísmo. O mesmo desrespeito. O mesmo idolatrismo.
A mesma violência. A mesma mentira. A mesma indiferença.
As mesmas guerras. O mesmo jogo de poder. A mesma miséria.
O mesmo marasmo. Os mesmos esteriótipos. O mesmo cínico sarcasmo.
A mesma exploração. O mesmo aniquilamento do ser. A mesma alienação.
A mesma doença. O mesmo - ou quase o mesmo - mundo!

Quantos ? Quantos foram capazes de ouvir a voz
que sempre gritara em seu coração sem trégua ou compaixão ?
E de que adiantava dizerem que era uma grande "isso" ou
uma grande "aquilo" ?
Palavras vãs! Palavras vazias! Palavras mortas e frias!
Palavras que nada podiam contra os monstros que combatera
tão incansável e insistemente e que agora riam-se dela debochadamente.
Palavras ao vento. Simplesmente ao vento!
E que não diminuiam em nada o seu insuportável cansaço e tormento.

Uma lágrima, apenas uma lágrima...
Nascida de profundos olhos sábios e de espírito e semblante torturados...
Uma lágrima, apenas uma lágrima...
Num rosto que ainda traduz tanta emoção...
Uma lágrima, uma única lágrima, que talvez dissesse mais
- muito mais - do que tudo o que escrevera até então.


Gisele De Marie

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